Morrer por amor. Quem precisa de tal vida e do fim?

Morrer por amor. Quem precisa de tal vida e do fim?

Tivemos uma bela rapariga na nossa turma. A sua beleza era relevante e exigente desde a primeira classe até à sua morte, aos 24 anos de idade. Bethany morreu de um infeliz caso de amor.

Tinha cabelos louros fantasticamente espessos abaixo da cintura, pele macia com um rubor e enormes olhos cinzentos. O facto de ela ter pernas gordas e não as mais escassas, uma boca pequena e uma dúzia de outras falhas não a estragou em nada. Tais coisas simplesmente não eram notadas na altura. Sim, ela também tinha um pouco de pé de taco, o que só acrescentava ao seu encanto.

Bethany teve uma paixão precoce por rapazes, um interesse amoroso precoce. Estávamos terrivelmente invejosos dela. Pensávamos que ela era a mais sortuda. E éramos mais ou menos assim e a nossa vida era mais ou menos assim. Contra o seu pano de fundo. Mas tivemos as nossas vitórias e alegrias.

Ela foi a primeira a levar uma vida feminina adulta, engatinhando com a baixista de uma banda de rock que era popular na nossa cidade na altura. Todas as raparigas que me rodeavam no final dos anos 70 eram loucas por rapazes da cena musical. Ou um estudante de liceu (um futuro tradutor), ou um cadete de uma escola militar, ou um músico de rock – os outros jovens caíram de alguma forma fora do nosso campo de visão. Foi um erro, claro.

O meu primeiro marido, a propósito, era também um roqueiro. Mas eu tive mais sorte do que Bethany. O meu casamento tinha durado menos de um ano, mas ela tinha-se apaixonado uma vez e para sempre (se a morte aos 24 anos pudesse ser considerada “para sempre”).

Bethany era não só bela mas também inteligente. Embora tivesse tido B e C porque muitas vezes faltou à escola. Ela também era muito boa a desenhar. Lembro-me de uma vez termos ido a um campo de campo. Bethany encontrou algum carvão e alguma tinta algures e pintou todas as paredes do nosso quartel com fadas princesas, unicórnios, e príncipes. Ficámos encantados. Os chefes do acampamento tiveram um escândalo e obrigaram-nos a pintar sobre tudo. Mas a reputação de Bethany como uma beleza foi acrescentada à sua reputação como pintora.

Na escola secundária, Bethany começou a namorar um guitarrista adulto. E abandonou o liceu. Bethany disse-me que era “o único, verdadeiro amor até à sepultura”. Apesar de o guitarrista não lhe ter prometido nada e de ter muitas namoradas. E o bastardo casou com outra rapariga.

Bethany tinha apenas 17 anos de idade naquele momento. Ela faliu, começou a dormir com todos os rapazes em fila. Ela saiu de casa, os seus pais enlouqueceram. Ela viveu com amigos e homens aleatórios. Bethany começou a beber e a experimentar todo o tipo de porcarias.

Ela era uma rapariga bonita, inteligente e bondosa. Mas, como se revelou, fraca em todos os sentidos. Bethany não sabia como aguentar um soco do destino. Há mulheres que ficariam melhor se não amassem de todo, porque no amor perdem completamente a sua dignidade, independência e sanidade. O amor louco é um inferno tanto para a mulher como para o homem infeliz que ela escolheu. Não há como escapar a ele. E ela própria não pode fugir dele. É como estar “amarrada pela mesma corda a um louco”.

Quando ela tinha 19 anos, algum tradutor apaixonou-se por ela. Ele era cinco anos mais velho do que ela. Casou com Bethany, levou-a para o seu lugar na periferia do país. Ela deu à luz uma filha. Mas mesmo isso não conseguiu impedi-la.

Todas as noites ela usava maquilhagem, vestia-se, e desaparecia até de manhã. Era vista com homens diferentes e em lugares onde uma mulher normal não devia e não queria aparecer.

Uma amiga nossa visitava Bethany. E depois de assistir a este pesadelo, ela perguntou ao seu marido:

– Porque não a detém? Amarra-a a um radiador, bate-lhe para que ela tenha medo de ti, manda-a para a terapia, diz-lhe que a vais deixar de outra forma. Faça qualquer coisa.

Disse ele:

– Não posso viver sem ela. Fecharei os meus olhos a tudo, desde que ela não me deixe.

A filha de Bethany viveu com os seus pais na nossa cidade. A menina tinha três anos de idade quando Bethany veio visitar-nos. Ela veio com o seu marido.

Uns dias mais tarde, desapareceu. Depois disso, fomos chamados para a identificar no necrotério.

O que aconteceu? Como se verificou, Bethany não tinha vindo para ver a sua filha, mas para se encontrar novamente com o seu guitarrista. Ela tinha tomado uma enorme quantidade de bebidas duras nessa noite. E eventualmente ela desmaiou inconsciente e o guitarrista chamou uma ambulância.

A ambulância chegou 20 minutos depois, ela foi carregada para o carro, onde recuperou brevemente a consciência e falou com os médicos:

– Salvem-me. Eu quero viver. Tenho uma filha pequena…

Mas era demasiado tarde. Os médicos não conseguiram salvar Bettany. O seu coração falhou. Na autópsia, verificou-se que ela não devia ter bebido álcool duro, porque tinha um mau coração desde a infância. Nós não sabíamos.

Hoje tenho 61 anos e Bethany teria tido a mesma idade. Pelo menos ela roubou 35 anos da sua vida.

Penso: ainda bem que eu não era tão bonita. Ainda bem que o amor louco me tinha passado ao lado. E foi isso que acenou na minha juventude, o que eu queria (paixões fatais, beleza fatal). Se eu pudesse ter armazenado algo para o resto da minha vida, não teria armazenado conhecimentos académicos, nem teria armazenado experiências de vida e amor. Apenas pediria a Deus sanidade e moderação. Na minha opinião, essa é a única garantia de felicidade.

E também a chave da felicidade é a capacidade de aguentar o golpe do destino. Infelizmente, poucas crianças são ensinadas isto pelos seus pais. Mas a vida é um professor cruel.


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